Neste ano foram defendidas 7 teses.

Útlima atualização 09/05/2017

Wellington Pedrosa Quintino

Título: Aspectos da fonologia xavante e questões relacionadas: rinoglotofilia e nasalidade

Orientadora: Marília Facó Páginas: 501


Resumo da Tese

Linha de pesquisa: Língua e Sociedade

Os Xavante, povo do grupo Akwen, somam hoje mais de 15.300 indígenas e habitam o nordeste do estado do Mato Grosso. São os principais representantes do ramo central da família Jê, do tronco linguístico Macro-Jê. Em uma análise inicial da fonologia da língua Xavante (Quintino, 2000), por meio dos dados com que contávamos até então, pudemos observar a ocorrência de alguns processos fonológicos que reinterpretamos a partir de novos dados surgidos durante a pesquisa. No âmbito da sílaba, observamos que, especificamente no domínio da Coda, existe uma restrição que proíbe a ocorrência de qualquer estrutura que não seja um dos segmentos: [p], [b] e [m], que ocorrem de forma condicionada neste ambiente, além da palatal [j]. A harmonia nasal é um dos fenômenos fonológicos mais recorrentes nas línguas do mundo. A fonologia gerativa padrão caracterizava esse tipo de assimilação em termos de cópia de traços, de forma que um segmento copiasse as especificações de traço de um segmento vizinho. Pretendemos nesta pesquisa, a partir da descrição inicial dos segmentos que ocupam posição de Onset e Coda, discutir as origens da nasalidade em Xavante a partir da ocorrência de regras de assimilação ou espalhamento como caracterizadas pela Geometria de Traços. Pretendemos também discutir a estreita relação entre o traço de nasalidade e glotalidade, rinoglotofilia, nos termos de Matisoff (1975) e o comportamento do traço [nasal] na língua Xavante. Re-analisamos, para tanto, o status fonológico dos segmentos consonantais nasalizados e dos segmentos vocálicos nasais em Xavante, bem como as restrições estruturais da sílaba nesta língua. Por fim, argumentamos que o comportamento da Coda em Xavante sugeriu uma relação muito mais íntima entre a articulação glotal e o traço de nasalidade – articulação que se mostra intrigantemente produtiva nessa língua e sobre a qual empreendemos uma investigação mais atenta nesta tese.
PALAVRAS-CHAVE: Contato Dialetal. Variação Lingüística. Mudança em Progresso.

Luciana de Melo

Título: Topicalização e cultura de oralidade

Orientador: Maria Cecília de Magalhães Mollica Páginas: 138


Resumo da Tese

Linha de pesquisa: Língua e Sociedade

Esta tese de doutorado analisa como os falantes das comunidades de Barra e Bananal – BA formam estruturas de tópico no português brasileiro. Sua finalidade é caracterizar as construções de tópico e suas motivações de uso. E também confirmar a relevância da variável escolaridade como responsável pelo surgimento de sentenças de topicalização em comunidades de oralidade. As comunidades pesquisadas foram escolhidas em função de tais critérios: (a) povoados constituídos por uma população afrodescendente advinda de um antigo quilombo; (b) comunidades rurais isoladas das outras cidades vizinhas e apresentam visíveis marcas de línguas de oralidade; (c) pouco ou nenhum acesso aos meios de comunicação em massa como televisão e rádio. Como suporte para a análise quantitativa dos dados, o pacote de programas GOLDVARB X constituiu ferramenta fundamental para o processamento da análise multivariacional no âmbito da sociolinguística quantitativa laboviana. Os resultados mostram que o falante com menor grau de escolaridade tende a empregar mais topicalizações que aquele que possui mais tempo de letramento, fornecendo indicadores para a postulação da hipótese segundo a qual a escolarização inibe a topicalização. A variável faixa etária também se mostrou relevante, já que os falantes mais velhos das comunidades que constituem a amostra tendem a topicalizar mais que os mais novos. As variáveis linguísticas como animacidade, peso do sintagma nominal e material interveniente entre o sintagma nominal e o sintagma verbal são também fatores importantes para a emergência de topicalizações. Processamento é vetor determinante para o surgimento de construções de tópico e deslocamentos à esquerda. Quanto maior o custo do processamento, medido por distância, complexidade sintática e presença de material interveniente, tanto mais provável o emprego de pronomes anafóricos cujo papel fundamental é o de recuperar o referente que quer ser acessível e realçado. O estudo deixa portas abertas para pesquisas que comparem outras comunidades de cultura oral, de modo a atestar com maior grau de certeza a hipótese central. A análise de variedades faladas em Portugal e em África tornam-se, então, pontos de pauta numa agenda de investigações a ser levadas a termo.

Priscilla Mouta Marques

Título:Estudo Diacrônico da Ordenação do Sujeito em Relação ao Verbo no Português

Orientadora: Maria Maura CezárioPáginas: 154


Resumo da Tese

Linha de pesquisa: Mecanismos funcionais do uso da Língua

Este trabalho, de cunho funcionalista, tem como objetivo analisar diacronicamente a ordenação do sujeito em relação ao verbo no português, observando o que motiva a ocorrência desse termo na posição pré ou pós-verbal. A hipótese principal que permeou este trabalho é a de que o posicionamento do sujeito é motivado não só por fatores estruturais, mas sobretudo por aspectos discursivo-pragmáticos. Visando atingir o objetivo proposto e comprovar as hipóteses que norteiam este estudo, utilizamos dados retirados de fontes dos séculos XIV ao XX. Fizeram parte da análise todos os tipos de cláusula em frases afirmativas e negativas. Os resultados de nossa análise apontam para um caráter essencialmente funcional da ordenação do sujeito no português em todos os séculos. Inclusive em casos em que aparentemente se verificava influência de um fator estrutural, observamos que atuavam aspectos discursivo-pragmáticos. Nos séculos XVII e XIX especificamente, embora fatores gramaticais tenham sido observados como os explanatoriamente mais fortes, subjazia ao fenômeno da ordenação a influência do estatuto informacional em um segundo momento. A ocorrência de sujeitos novos antepostos ao verbo está relacionada ao grau de prototipicidade destes referentes e ao nível de gramaticalização da cláusula em que esses itens estão inseridos. No caso de sujeitos evocados em configurações pós-verbais, verificamos que, em geral, esses sujeitos caracterizam-se pelo fato de deixarem de ser tópico e passarem a ser o foco da oração. Esses achados convergem para a confirmação da relação de simbiose entre discurso e gramática, constituindo esta um conjunto de regularidades provenientes de nossas habilidades cognitivas e interacionais e da automatização de estratégias que apresentam alta frequência no discurso

Marcia da Silva Mariano Lessa

Título: Ordenação de circunstanciais temporais e locativos na escrita jornalística contemporânea

Orientador: Maria da Conceição Paiva Páginas: 139


Resumo da Tese

Linha de pesquisa: Maria da Conceição Paiva

Esta tese focaliza a ordenação de Spreps circunstanciais temporais e locativos na escrita jornalística do português brasileiro contemporâneo. O estudo conjuga duas perspectivas de análise: a posição dos circunstanciais locativos e temporais nas margens esquerda e direita em orações com um único circunstancial e a sequenciação relativa de dois ou mais circunstanciais de mesma categoria semântica e de categoria semântica distinta. Uma questão central diz respeito à existência de uma ordem não marcada mais geral independentemente da classe semântica de cada circunstancial. Partimos da hipótese de que esta ordem não marcada, em termos de frequência, é pragmaticamente não marcada e de que a variação na ordem de circunstanciais temporais e locativos é um fenômeno multifatorial e analisamos fatores de ordem sintática, semântica e discursiva, tais como a estrutura argumental do verbo, o tipo de sujeito, o tipo semântico de cada circunstancial, suas diferentes funções sintáticas, as diversas funções discursivas que estes constituintes podem desempenhar na organização textual, a extensão do circunstancial, e o gênero textual em que eles ocorrem. Em relação à segunda perspectiva de análise, nosso objetivo é verificar se a ordem não marcada dos locativos e temporais pode ser alterada em contextos de co-ocorrência com outros constituintes circunstanciais, principalmente o de modo. Buscamos depreender os princípios que atuam sobre uma sequenciação preferencial desses constituintes, em especial o princípio de centralidade semântica, o que envolve as relações de dependência sintática e o princípio de peso final. Para verificar as hipóteses que norteiam este estudo, analisamos uma amostra, constituída por pesquisadores do grupo Peul, composta por textos representativos dos gêneros notícia/reportagem, artigo de opinião, editorial, crônica e carta, e extraídos do “Jornal do Brasil”, “O Globo”, “Extra” e “O Povo”. A análise permitiu identificar regularidades quanto aos dois aspectos considerados. Na ordenação de um único circunstancial, destaca-se, principalmente para os locativos, a função discursiva do circunstancial. A ocorrência da Spreps locativos na margem esquerda da oração ocorre em contextos bem específicos, em que o locativo assume funções como a de contraste, focalização e segmentação tópica. Outras motivações que favorecem circunstancial na margem esquerda da oração são o tipo de sujeito, principalmente o sujeito posposto, o tipo semântico do circunstancial, particularmente para os locativos, e o gênero textual, distinguindo-se as cartas. Em relação à co-ocorrência de Spreps de lugar, tempo e modo, destacamos a importância da extensão dos constituintes na sua ordenação relativa: circunstanciais menos extensos tendem a preceder circunstanciais mais extensos. Em se neutralizando a extensão, princípios como o de centralidade semântica e o de dependência sintática contribuem para a ordenação relativa de circunstanciais.

Jaqueline Barreto Lé

Título: Referenciação e gêneros jornalísticos: sistemas cognitivos em jornal impresso e jornal digital.

Orientador: Vera Lúcia Paredes Páginas: 191


Resumo da Tese

Linha de pesquisa: Língua e Sociedade

Esta pesquisa tem por objetivo investigar os processos de referenciação e seus aspectos cognitivos no universo textual de construção de sentido, mais propriamente nos variados gêneros jornalísticos (em jornal impresso e jornal eletrônico). Parte-se do pressuposto de que é possível detectar diferenças e peculiaridades entre os processos textuais de referenciação relativos ao jornal impresso e aqueles encontrados em seu formato on-line. Isso envolve, naturalmente, não apenas a identificação de estratégias cognitivas diferenciadas em cada um desses gêneros, mas também a revisão de questões teóricas ligadas às duas principais temáticas abordadas no presente estudo: gêneros textuais e processos de referenciação. Assim, o estudo se enquadra na perspectiva funcional, voltando-se ao escopo teórico da Linguística Textual e da Linguística Cognitiva, de vez que analisa os chamados gêneros textuais como práticas discursivas, social e contextualmente localizadas. Também investiga a referenciação – especialmente os casos de anáfora indireta – com base em processos cognitivos que são ativados no momento mesmo da ação comunicativa, o que implica considerar não mais os “referentes”, mas sim os “objetos do discurso”. Em tal abordagem teórica, então, seria mais adequado falar em referenciação no lugar de referência – como destacam Mondada e Dubois (2003) -, a fim de se ressaltar a ideia de “processo” subjacente a todo evento comunicativo. O corpus da pesquisa é formado por textos de edições (eletrônicas e impressas) de dois jornais de circulação nacional: Folha de São Paulo e O Globo. Incluem-se na amostra 60 textos de cada gênero jornalístico investigado, analisando-se um total de 9 gêneros e 120 edições (60 impressas e 60 eletrônicas). Entre os gêneros jornalísticos abordados neste trabalho estão: a) no jornal impresso: artigo, entrevista, notícia, crônica, opinião do leitor; b) no jornal eletrônico: plantão de notícias, enquete, blog e twitter. A seleção de gêneros distintos nas versões impressa e eletrônica dos referidos jornais foi motivada pelo intuito de contemplar tanto gêneros jornalísticos tradicionalmente conhecidos (artigo, entrevista, notícia, crônica, opinião do leitor) como aqueles encontrados apenas em meio eletrônico (plantão, enquete, blog, twitter). Todos eles foram analisados com vistas a uma nova classificação de gêneros emergentes, a partir de Marcuschi (2005a), considerando-se, neste caso, o espaço jornalístico digital como meio de produção, ou, conforme Lévy (1999), a noção de ciberespaço. Também foi proposta, na análise das anáforas indiretas, uma tripartição dos processos de referenciação em: a) anáforas associativas; b) anáforas esquemáticas e c) anáforas encapsuladoras. No que concerne à produção de sentidos no jornal on-line, reconheceu-se, em tal investigação, que o caráter não-linear do hipertexto contribui sensivelmente para o desenvolvimento de estratégias comunicativas específicas que precisam hoje ser focalizadas pelos cientistas da linguagem. O campo de estudo torna-se, então, mais desafiador à medida que temáticas já pertencentes ao paradigma funcional de análise linguística passam a ser revisitadas, a saber: linearidade, coesão, coerência, referência, argumentação, entre outras. Por fim, em se tratando dos estudos de gêneros, tornou-se essencial à analise, ainda, o estabelecimento de possíveis conexões entre as abordagens sociodiscursivas da linguagem, das quais fazem parte os trabalhos de Bakhtin, Adam (1992) e Bronckart (1999).

João Ricardo Melo Figueiredo

Título: O Presente pelo Passado: variação verbal em narrativas de deficientes visuais

Orientador: Helena Gryner Páginas: 164


Resumo da Tese

Linha de pesquisa:

Este trabalho analisa a variação de tempo verbal entre o presente histórico e o pretérito perfeito em narrativas de experiência pessoal de falantes com deficiência visual. Com base nos princípios teóricos e metodológicos da Sociolingüística Variacionista foram investigados contextos lingüísticos e extralingüísticos correlacionados às variantes presente histórico e pretérito perfeito. Os corpora desta pesquisa foram constituídos através de entrevistas baseadas no modelo laboviano de entrevistas sociolingüísticas. São constituídas três amostras, levando-se em consideração a acuidade visual do informante, desde a cegueira congênita até o indivíduo com visão funcional (baixa visão). Os resultados apontam para uma relação de proximidade correlacionada ao uso do presente histórico, o que está diretamente correlacionado à seleção dos grupos de fatores relevantes para esta análise. Observou-se ainda particular comportamento dos informantes cegos congênitos, em relação ao fenômeno em estudo, sendo este fato relacionado à proximidade relativa ao uso do presente histórico e à aquisição do conhecimento pela pessoa cega.

Elzimar de Castro Monteiro de Barros

Título: Construções modais com ter: gramaticalização e variação

Orientador: Maria da Conceição Paiva Páginas:246


Resumo da Tese

Linha de pesquisa: Língua e Sociedade

Nesta tese, investigamos o uso das construções modais ter de + infinitivo e ter que + infinitivo, no PB contemporâneo, em duas perspectivas. Na primeira, focalizamos ter que + infinitivo, soberana na modalidade falada, através de um estudo em tempo real de curta duração do tipo tendência, procurando verificar a emergência de novos valores modais para essa perífrase. Partimos da hipótese de que, inicialmente gramaticalizada no domínio deôntico, essa perífrase prossegue uma trajetória unidirecional de mudança no sentido de [-subjetivo] > [+subjetivo]. Para verificar essa hipótese, foram utilizados dados de entrevistas sociolinguísticas que compõem as Amostras Censo 1980 e Censo 2000, representativas de duas sincronias da variedade carioca. Com o objetivo de identificar as propriedades mais relevantes dessas perífrases, foram analisados os valores modais dessas construções, as propriedades modo-temporais e número-pessoais do verbo ter, as propriedades semânticas, o tipo sintático e de processo de V2, as propriedades semântico-discursivas do contexto e as variáveis faixa etária, gênero/sexo. Os resultados obtidos mostram que ter que + infinitivo caracteriza-se por apresentar o verbo ter no presente do indicativo e na terceira pessoa do singular; V2 associa-se a sujeitos com o traço semântico [+humano] e [+arbitrário]. Mais frequentemente, as orações com a construção ter que + infinitivo situam-se em contextos discursivos nos quais emergem relações no domínio da causalidade. O processo de mudança verificado entre as duas sincronias foi identificado através do continuum entre obrigação/necessidade [+forte] > [-forte]. A variável social faixa etária demonstrou o uso mais expressivo da construção ter que + infinitivo nas faixas intermediárias, com queda significativa nas faixas extremas. A variável gênero revelou que as mulheres tendem a usar mais essa variante com seu valor deôntico e extrínseco e os homens, com o valor epistêmico. Na segunda dimensão da pesquisa, focalizamos a variação entre as duas construções na modalidade escrita, com o objetivo principal de identificar os contextos de resistência de ter de + infinitivo. Para essa análise utilizamos uma amostra do discurso jornalístico constituída de textos representativos de diversos gêneros, publicados durante o período de 2000 a 2004. Os resultados obtidos mostram que essa construção tende a ocorrer no domínio epistêmico, em contextos de primeira pessoa, de sujeito [+humano], de verbos de processo mental, percorrendo um cline de significados [-subjetivo] > [+subjetivo]. Verificamos, também, a correlação entre os valores modais das construções com ter e os diversos gêneros da mídia jornalística. Os resultados demonstraram que a construção ter de + infinitivo tende a ser mais utilizada em gêneros mais formais, como os editoriais.