Neste ano foram defendidas 10 teses.

Útlima atualização 08/12/2017

 

Fernando Lúcio de Oliveira

Título:O Processamento da Assimetria Sujeito-Objeto e a Hipótese da Assimetria como Terceiro Fator

Orientador: Marcus Maia Coorientadora: Aniela Improta França Páginas: 191


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Esta tese investigou o processamento da Assimetria-Sujeito objeto (ASO) em interrogativas-QU do português brasileiro (PB) e do português europeu (PE). A hipótese principal é a de que interrogativas- QU de sujeito e de objeto diferem em vários aspectos, a depender de contextos gramaticais, da atuação de princípios de parsing como o Princípio do Antecedente Ativo (CLIFTON & FRAZIER, 1989) e o Princípio da Cadeia Mínima (DE VINCENZI, 1991; 1996). Além disso, discutiu-se o conceito de “terceiro fator” ou “necessidade conceptual virtual” (CHOMSKY, 2005; 2012; 2013) com o objetivo de argumentar a favor de que a ASO pode ser parcialmente atribuída a um “princípio geral de assimetria”, sob domínio do terceiro fator na perspectiva biolinguística. Esse argumento encontra suporte em exemplos de assimetria na linguagem discutidos na seção 2.3 e nas conclusões de Trotzke, Bader & Frazier (2013) e de Maia (2016). Também foram apresentados e discutidos os resultados de quatro experimentos: dois de leitura automonitorada (um com frases do PE e outro com frases do PB), um de rastreamento ocular com frases do PB e ainda um de eletroencefalografia também com frases do PB. Os resultados apontam preferência de processamento tanto on-line quanto off-line para interrogativas-QU de sujeito na maioria das comparações e prioridade da sintaxe nos procedimentos de parsing. O achado mais importante foi a elicitação de um N400 indicando que o processamento do sujeito só se faz por inteiro quando o objeto entra na estrutura, o que também foi encontrado nos experimentos 2 e 3 e em resultados recentes (FRANÇA & GOMES, 2015; FRANÇA et.al, 2007).

Pollyanna Pereira de Castro

Título:Aplicativas, infinitivas e periferia esquerda no crioulo de Guiné-Bissau.

Orientador: Marcia Maria Damaso Vieira Páginas: 176


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Esta tese tem por objetivo descrever e analisar alguns aspectos gramaticais da língua crioula de Guiné-Bissau (CG) que ainda não foram tratados por outros pesquisadores: (i) as construções dadas como passivas cujos sujeitos apresentam diferentes interpretações temáticas; (ii) a identificação de orações infinitivas em uma língua sem desinências verbais e de construções de Marcação Excepcional de Caso (ECM) e de controle de objeto; (iii) a constituição da periferia esquerda da oração e as posições ocupadas por diferentes tipos de tópicos. Para descrever e discutir essas questões tomamos como base as propostas de Pylkkännen (2002) e Cuervo (2003) para o problema das passivas, as de Radford (2004), de Ademola (2011) e de Kim (2013), dentre outros, para a identificação das formas infinitivas e das construções de controle de objeto e de ECM, as de Rizzi (1997, 2004), de Rizzi e Bocci (2017) e de Frascarelli (2012) para a periferia esquerda da oração e para os tipos de tópicos existentes.

Com a finalidade de atingir os objetivos aqui traçados, foram realizados testes de versão e de julgamento de gramaticalidade para a coleta de dados primários, junto a três falantes nativos do CG, todos residentes no Brasil.

Foi possível concluir que as passivas cujos sujeitos apresentam variadas interpretações temáticas são derivadas de estruturas que envolvem diferentes tipos de morfemas aplicativos, conforme as tipologias estabelecidas por Pylkkännen (2002) e Cuervo (2003): to-the – possession-of, from-the possession-of e posse estática (at) e aplicativo afetado. Também foi possível observar, seguindo Cuervo, que cada tipo de morfema aplicativo se combina com um determinado tipo de verbo. Constatamos que as orações infinitivas do CG são identificadas pela exclusão de ocorrência de um sujeito nominativo, já que não há infinitivos flexionados em línguas [-sujeito nulo].

  Constatamos ainda que há uma diferença estrutural entre verbos de controle de objeto e verbos do tipo ECM. Os primeiros são bitransitivos, ao passo que os segundos são transitivos. Além disso, observamos que as construções de ECM envolvem uma regra de alçamento de objeto (Raising to Object), que desloca o sujeito subordinado para uma posição na oração principal em que recebe caso acusativo. O redobro de pronomes verificado nas estruturas ECM é justificado pela aplicação das operações de copy-Raising e copy-ECM, como sugeridos por Kim (2013) e Ademola (2011) para outras línguas.

Também concluímos que, na periferia esquerda do CG, é possível postular uma hierarquia de projeções funcionais igual a proposta por Rizzi (1997, 1999 e 2004) e que inclui também uma projeção para advérbios antepostos – ModP. O CG se caracteriza como uma língua com recursividade de tópicos altos e que licencia a posição de tópico baixo. Essas propriedades fazem parte da tipologia sugerida por Rizzi e Bocci (2017) para a manifestação de tópico nas línguas naturais. Os tópicos altos do CG podem ser realizados como deslocamento para a esquerda e podem ser identificados como do tipo aboutness topic, na classificação de Frascarelli (2012).

Priscila Thaiss da Conceição de Medeiros

Título:Gramaticalização de Conectores: um estudo diacrônico de entretanto e no entanto

Orientador: Maria da Conceição Auxiliadora de Paiva Páginas: 192


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No entanto e entretanto são conhecidos nas gramáticas tradicionais como conjunções coordenativas adversativas. Contudo, essa classificação não é consensual entre os linguistas devido a certas características dessas construções que remetem à sua forma adverbial. Esta tese investiga a trajetória de mudança que levou as construções no entanto e entretanto a assumirem funções juntivas e os contextos que possibilitaram a sobreposição de valores semânticos no domínio de tempo e de contraste. Ademais, identificamos as particularidades contextuais e pragmáticas de no entanto e entretanto e sua relação com as locuções conjuntivas (no) entanto que e entretanto que. A pesquisa se insere na perspectiva dos Modelos Baseados no Uso, mais especificamente no campo dos estudos de gramaticalização de construções. Um pressuposto básico desses modelos é o de que a emergência de novas construções nas línguas ocorre em contextos específicos e seu desenvolvimento envolve tanto mudanças na forma como no significado. Para a realização da pesquisa, utilizamo-nos de versões digitais de textos representativos dos três períodos do português. Neste estudo, ênfase especial é dada às diferentes propriedades da oração e do contexto que podem ter propiciado a emergência de inferências que levaram a uma sobreposição de valores no domínio do contraste aos usos temporais centrais de no entanto e de entretanto. Identificamos que o sentido temporal de simultaneidade já apresenta alguns contextos que permitem uma interpretação temporal-contrastiva. Progressivamente, ocorre perda de delimitação temporal expressa no contexto anterior às construções em estudo, o que obscurece o sentido temporal. Aliado a isso, usos com polaridade negativa e com modo irrealis no contexto favoreceram a ocorrência de contextos ambíguos que podem ter acionado a mudança.

Marcelo Alexandre Silva Lopes de Melo

Título:Direcionalidade da mudança sonora: o papel do item lexical e da avaliação social

Orientador: Christina Abreu Gomes Páginas: 156


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A presente pesquisa compara o comportamento de grupos sociais distintos da comunidade de fala do Rio de Janeiro em relação a duas variáveis fonológicas – o (s) em coda e o (r) em coda interna –, com o objetivo de buscar mais evidências acerca do papel do item lexical na propagação da mudança sonora, bem como da possibilidade de desenvolvimento de diferentes padrões linguísticos em uma mesma comunidade de fala. A hipótese é que as diferentes representações mentais incorporam as mesmas possibilidades fonéticas disponíveis para os falantes da comunidade de fala, mas com distribuições probabilísticas diferentes, em função da experiência (social) dos indivíduos. A análise dos dados de produção foi realizada: a) para o (s) em coda, por meio da comparação entre os dados de produção obtidos junto à Amostra Fiocruz e os resultados já encontrados para as Amostras EJLA e CENSO 2000 (MELO, 2012); b) para o (r) em coda, por meio dados de produção obtidos para a o (r) em coda interna nas três amostras que integram a presente pesquisa. Além disso, como as diferentes direcionalidades podem estar associadas à dinâmica social de diferentes classes sociais e valores sociais atribuídos às formas linguísticas, foram realizados testes de avaliação envolvendo as duas variáveis, a fim de atestar se a avaliação das diferentes variáveis é a mesma para todos os indivíduos da mesma comunidade de fala. Os testes foram aplicados em indivíduos dos grupos sociais aos quais pertenciam os falantes das amostras EJLA e Fiocruz, além de indíviduos com padrões sociais semelhantes ao grupo de falantes selecionados a partir da amostra CENSO 2000 e que integram essa pesquisa (estudantes de Letras da UFRJ, pertencentes à classe média média e média baixa). Os resultados apontam para a existência de diferentes padrões linguísticos relativos aos três grupos no que diz respeito às duas variáveis. Isto porque, em relação à produção do (s) em coda, os falantes do subgrupo da amostra Censo 2000 e os adolescentes da Fiocruz apresentam um padrão muito semelhante em relação à variação do (s) em coda, padrão este que é bem diferente daquele apresentado pelos adolescentes da EJLA. Esse padrão também pode ser observado em relação à avaliação dessa mesma variável: os falantes universitário da classe média média e média baixa (UFRJ) e do grupo Fiocruz apresentam padrões muito semelhantes de avaliação e, ao mesmo tempo, muito distinto daquele observado para o grupo EJLA. Relativamente à produção do (r) em coda interna, os adolescentes da Fiocruz se aproximam dos adolescentes da EJLA, mas, quanto à avaliação das variantes dessa variável, os adolescentes da Fiocruz apresentam um comportamento interessante: no tocante à avaliação da não-realização da coda, esses adolescentes se aproximam da avaliação realizada pelos falantes universitários da classe média média e média baixa (UFRJ), porém, no tocante à avaliação da outra variante analisada (realização da coda), os adolescentes da Fiocruz, se aproximam dos adolescentes da EJLA. Por fim, os resultados obtidos revelam a importância do item lexical para detectar se há diferentes direcionalidades de mudança entre grupos sociais de uma mesma comunidade de fala para diferentes variáveis sociofonéticas, como também revelam que o grau de integração o de jovens socialmente excluídos pode afetar o comportamento linguístico deste grupo.

Márcia Nascimento

Título: Evidencialidade em Kaigang: descrição, processamento e aquisição

Orientador: Marcus Maia Coorientador: Luiz Amaral Páginas: 184


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Esta tese aborda a categoria de Evidencialidade na língua Kaingang a partir do ponto de vista descritivo bem como do seu processamento e aquisição. Interessa ao presente estudo, além de buscar a descrição do sistema, entender como se dá o processo de compreensão dos evidenciais pelos falantes adultos e as implicações no seu uso. Em termos de aquisição desse sistema, o objetivo do estudo é o de averiguar se as crianças são sensíveis às implicações dos diferentes tipos de evidenciais, e em que momento elas passam a compreender essas diferenças. Para a descrição do sistema de evidencialidade em Kaingang retomamos o trabalho de Nascimento (2013), explicando questões relacionadas ao funcionamento desta categoria gramatical e sua relação com a categoria dos Núcleos oracionais. Denominamos Núcleos oracionais a proposta de reanálise que sugerimos à categoria conhecida na literatura como marcadores de sujeito em Kaingang (Wieseman 1967, 2002). Argumentamos que os Núcleos oracionais compõem a categoria funcional que é responsável por licenciar orações matrizes nesta língua, sendo que essa categoria comporta também alguns marcadores evidenciais. Utilizando técnicas da Psicolinguística Experimental, averiguamos questões relacionadas ao processamento dos evidenciais direto e indireto por falantes adultos, através de dois estudos: um experimento de compreensão off-line e um estudo de Eye-tracking (rastreamento ocular). Além desses estudos, abordamos de forma exploratória, questões relacionadas aos evidenciais e à recursividade. Para averiguar a aquisição dos evidenciais pelas crianças, aplicou-se um experimento exploratório de compreensão off-line do tipo “oral sentence/picture matching”, buscando 7 averiguar se crianças Kaingang com idade entre 3 e 7 anos são sensíveis às implicações dos evidenciais reportativo e visual. Os resultados dos estudos experimentais, de modo geral, apoiam nossas hipóteses experimentais e fornecem pistas importantes sobre as características desses morfemas evidenciais, a forma como atuam no processamento e na aquisição pelas crianças.

Maria Fernanda Moreira Barbosa

Título: Processamento e representação de palavras complexas por derivação: um estudo sobre a sufixação do português brasileiro

Orientador: Christina Abreu Gomes Páginas: 187


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Nesta tese, investiga-se como ocorre o processamento e a representação lexical de palavras morfologicamente complexas no Português Brasileiro e, mais especificamente, o grau de analidabilidade sincrônica das formas derivadas por sufixação. Nos Modelos Baseados no Uso, parte-se da hipótese de que há uma relação entre cognição e uso, de maneira que o uso afeta o conhecimento linguístico abstrato e vice-versa. Portanto, postula-se que a frequência de ocorrência e de tipo têm impacto no processamento e na representação dos itens lexicais etimologicamente complexos armazenados na mente dos falantes. Vários estudos mostram que os efeitos da frequência da base ou raiz e da palavra inteira desempenham um papel importante no processamento morfológico. Assim, alguns estudos apontam que as palavras complexas de alta frequência estão mais propensas a serem segmentadas em subpartes enquanto as palavras de baixa frequência apresentam uma tendência maior para serem recuperadas inteiras no léxico mental. Por exemplo, Burani e Caramazza (1987) encontraram evicências de efeitos de frequência de ocorrência e de tipo no italiano. Em estudo mais recente, Burani e Thornton (2003), prevê que uma palavra complexa para ser decomposta ou recuperada integralmente da memória depende da razão entre a frequência da base e da palavra derivada. Neste caso, as palavras morfologicamente complexas podem ser acessadas por duas vias (rota direta e rota decomposicional) que atuam em paralelo e competem entre si, afetando o grau de analisabilidade do item lexical. Nesta pesquisa, a frequência de tipo dos sufixos foi aferida na base de dados do projeto Avaliação Sonora do Português Atual (ASPA/UFMG), sendo selecionados os morfemas derivacionais: (a) -dor, -eiro, -oso, -mento, -ista e -idade, de alta frequência de tipo; (b) e, -ete, -ância, -ência, -ato, -ela e -tico, de baixa frequência de tipo. Para extrair a frequência relativa entre base e palavra derivada, utilizou-se o banco de dados de escrita do Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC/SÂO CARLOS) e a base de dados de fala espontânea do C-Oral Brasil (UFMG). Esse levantamento permitiu-nos compor as listas de palavras complexas para os quatro testes experimentais presentes neste estudo: um teste de relacionamento morfológico; um teste de relacionamento semântico entre base e palavra derivada; um teste para medir o efeito da frequência de tipo dos sufixos derivacionais; e, um teste de decisão lexical. Os experimentos foram formulados para aferir os processos envolvidos na representação de palavras morfologicamente complexas e, mais especificamente, avaliar o papel da frequência relativa na analisabilidade de formas derivadas bem como o efeito da frequência de tipo no processamento dos estímulos empregados nos testes experimentais. Os resultados revelaram que a frequência de tipo, a frequência relativa e a relação semântica entre base e derivado afetaram a velocidade de processamento e o modo como as palavras derivadas por sufixação estão representadas na mente dos falantes. Dada a granularidade da estrutura morfológica das palavras complexas, quando a base é menos frequente que o derivado, as palavras derivadas por sufixação são interpretadas ou analisadas na sua forma plena (palavra inteira). Em contrapartida, nos casos em que a base é mais frequente que o item derivado, as palavras complexas são representadas inteiras e suas partes são analisáveis e participam de esquemas que compartilham a mesma base ou o mesmo sufixo. Esses resultados corroboram as hipóteses de representação e de organização do léxico em redes de relações lexicais e apresentam evidência adicional que efeitos de frequência têm impacto na representação.

Natalia Ilse Paulino Machado

Título: Evidencialidade no português brasileiro com verbo ver: estratégias construcionais com base no uso

Orientador: Maria Maura C. Cezario Páginas: 190


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Este trabalho tem como objetivo geral analisar as contribuições do verbo VER, suas propriedades conceptuais e seus padrões de complemento na composição de construções que funcionam como estratégias de Evidencialidade no PB. A hipótese que orienta a presente pesquisa é a de que as estratégias de Evidencialidade com o verbo VER no Português Brasileiro emergem construcionalmente a partir da contribuição de características conceptuais do verbo e padrões de complementos específicos. As construções de Estratégia Evidencial apontadas nesta pesquisa, por serem maiscomposicionais, vinculam-se às suas partes de maneira mais significativa do que se observa em construções menos composicionais. Em relação a outros verbos de visão, recorreu-se à Semântica de Frames para analisá-los à luz do uso. Com base nos dados, verificou-se que o verbo VER, que compõe as construções de Estratégia Evidencial, evoca a experiência visual de forma mais ampla, perfilando os elementos Experienciador, que é acidental (passivo), e a entidade ou evento percebido. Outros verbos de visão analisados evocam outras perspectivas da experiência visual e, portanto, apresentam usos diferentes dos usos encontrados para o verbo VER. Com relação à representação das construções, decidiu-se pelo modelo de rede conexionista por se tratar de um modelo que pressupõe auto-organização e busca de padrões a partir de dados da experiência. Com isso, as redes aqui propostas procuram explicitar com detalhes as informações envolvidas nos padrões de ativação do processamento das construções de Estratégia Evidencial, conforme pressupostos dos modelos linguísticos com base no uso, mais especificamente da Linguística Cognitivo-Funcional.

Samara de Souza Almeida Ruas

Título:Aquisição da Ordem de Palavras do Espanhol Mexicano como L2 por Falantes Adultos Brasileiros

Orientador: Marcia Maria Damaso Vieira Coorientador: Carlos Felipe da Conceição Pinto Páginas: 386


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O objetivo deste trabalho é investigar a aquisição da ordem de palavras do espanhol mexicano como segunda língua por falantes adultos brasileiros. Especificamente, o que procuramos saber é se falantes adultos do português brasileiro aprendizes de espanhol adquirem a regra de inversão da ordem sujeito-verbo em contexto de foco estreito de sujeito. Estudos anteriores mostram que falantes do inglês aprendizes de espanhol adquirem a regra de inversão tardiamente, mas há opcionalidade. Os autores atribuem a aquisição tardia e a opcionalidade à Hipótese da Interface (sintaxe-discurso). Os nossos resultados não confirmam essa hipótese, já que os aprendizes brasileiros adquirem a regra de inversão, mas a opcionalidade parece não estar relacionada a propriedades discursivas, e sim a propriedades lexicais/formais. No entanto, há evidências de que o processo de aquisição não ocorre da mesma maneira na compreensão e na produção do fenômeno investigado. Os resultados do primeiro experimento evidenciam que o aprendiz pode compreender a posição pós-verbal final do sujeito como foco desde os níveis iniciais, dependendo do tipo de predicado verbal e do item verbal envolvido. Nos resultados do segundo experimento, apenas os aprendizes dos níveis avançado e quasenativo produzem a regra de inversão, independentemente das demais variáveis. A partir dos resultados, questionamos se o processo de aquisição de segundas implica reconfiguração de parâmetros ou traços no sentido de apagamento ou substituição de propriedades. Ao analisar os resultados, apresentamos evidências de que, durante este processo, o aprendiz acomoda regras aparentemente conflitantes em sub-gramáticas, tal como propõem Amaral e Roeper (2014).

Viviane da Fonseca Moura Fontes

Título: Dêixis e construal: uma abordagem cognitivista das formas 'nós' e 'a gente'

Orientador: Diogo Oliveira Ramires Pinheiro Páginas: 251


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Esta tese visa à caracterização da estrutura conceptual das categorias dêiticas formadas pelas expressões pronominais ‘nós’ e ‘a gente’, que indicam prototipicamente a 1ª pessoa do plural. A partir do referencial teórico da Linguística Cognitiva e, principalmente, com base na noção de construal (Langacker, 2008; Verhagen, 2005), o trabalho defende que os dêiticos ‘nós’ e ‘a gente’ ativam construals alternativos para a referência ao grupo de indivíduos formado por falante, ouvinte(s) e/ou outro(s) participante(s) não presente(s) no evento de fala imediato.
Para fundamentar a proposta, estabelece-se uma análise contextualizada desses dêiticos, a partir de dados de fala espontânea retirados de debates político-eleitorais televisionados, que reuniram candidatos a cargos de gerência pública (prefeito e presidente). A hipótese norteadora da pesquisa é a de que os dêiticos apresentam a mesma orientação intersubjetiva, mas contrastam quanto à focalização (organização figura-fundo). Dentro dessa perspectiva, a previsão é que o uso do dêitico ‘nós’ torna mais saliente a identificação individual dos participantes da cena comunicativa, colocando em proeminência a referência dêitica ao falante, seu(s) interlocutor(es) na interação e/ou demais participantes, enquanto a expressão ‘a gente’ subfocaliza a referência particular aos participantes da cena, deixando em destaque o grupo como um todo.
Com o objetivo de evidenciar o contraste entre os dêiticos, a análise busca associar as estruturas conceptuais propostas a contextos pragmáticos e discursivos particulares. Após a análise qualitativa preliminar, que permitiu estabelecer uma tipologia semântica para os dêiticos, os dados foram analisados quantitativamente e submetidos a tratamento estatístico (teste qui-quadrado de homogeneidade). Com relação aos tipos semânticos exclusivo, genérico, inclusivo e pseudoinclusivo, os resultados apontam diferenças estatísticas significativas; principalmente, no que diz respeito ao contraste mais geral entre usos exclusivos e inclusivos. No eixo pragmático, também se observam diferenças significativas com relação ao tipo de ato de fala realizado, verificando-se um contraste entre atos de fala compromissivos, de um lado, e assertivos/diretivos, de outro. Em relação a tipos textuais - em nível discursivo –, os dados indicam uma diferença significativa entre usos narrativo e argumentativo/expositivo.

Diego Leite Oliveira

Título:Construções de Foco com o Marcador "éto" em Russo

Orientador: Maria Luiza Braga Páginas: 269


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Em russo, o marcador éto assume caráter multifuncional, tradicionalmente descrito de duas formas: como pronome demonstrativo e como partícula discursiva. Caracterizações mais detalhadas ressaltam o seu aspecto gradiente, evidenciando instâncias de uso que exibem funções típicas de um pronome demonstrativo e instâncias que mesclam funções pronominais com funções que transitam entre a marcação de cópula e a marcação de foco. Este trabalho investiga construções de foco em russo com o marcador éto, sob uma abordagem construcionista baseada no uso. Nessa perspectiva, considera-se que a estrutura linguística emerge a partir da aplicação de processos cognitivos gerais, não exclusivamente linguísticos, sobre eventos de uso. Dessa forma, buscam-se motivações, que evidenciam a relação entre forma e significado na língua. A capacidade de identificar entidades e eventos no mundo constitui um recurso importante para os seres humanos, a qual não seria possível sem habilidades cognitivas gerais, tais como categorização, abstração, associação, entre outras. Na linguagem especificamente, o ato identificacional assume papel importante e permite que entidades e eventos sejam apresentados e retomados no discurso. Nesse sentido, a língua apresenta mecanismos variados para o estabelecimento do ato identificacional, que se observam não só, mas também, em construções de identificação. Neste trabalho, defendese que as construções de foco com o marcador éto são motivadas pela função de identificar entidades e/ou eventos no discurso, apresentando-os como informação nova. Analisam-se três tipos de construções: a construção pseudoclivada [QUi-X + éto + Yi] e a construção [Éto=X + ‘SX’], que exibem articulação de foco argumental, quando uma variável em uma proposição aberta pressuposta é identificada; e a construção de foco [Éto= S], que apresenta articulação de foco sentencial, quando uma oração inteira se encontra sob o escopo da asserção. Aqui tais construções são analisadas, considerando-se instâncias reais de uso da língua. Com base no Princípio da Motivação Maximizada, postulado por Goldberg (1995), argumenta-se que as construções de foco investigadas neste trabalho são motivadas por duas construções de identificação básicas da língua russa. A construção pseudoclivada [QUi-Y éto Xi] consistiria em uma versão mais específica da construção de identificação [Y éto X], e sua função seria identificar uma variável em uma dada proposição aberta pressuposta, focalizando amplo conjunto de constituintes, desde SN simples até orações, sendo mais característica do discurso escrito; a construção de foco [Éto= X + ‘S-X’]IV consiste, da mesma forma que a construção de foco [Éto =S], em um nó mais específico da construção [Éto=X], mas diferentemente da construção [Éto=S], que evidencia uma articulação de foco sentencial, a construção [Éto=X ‘S-X’] identifica uma variável em uma dada proposição aberta pressuposta, da mesma forma que a pseudoclivada, mas, diferentemente desta última, tende a focalizar preferencialmente SNs pronominais, ocorrendo em contextos explícitos de contraste, além de ser mais comum na fala, corroborando para um princípio igualmente importante na agenda funcional-cognitiva, caracterizado por Goldberg (1995) como o ‘Princípio da Não-Sinonímia’, segundo o qual diferenças de forma acarretam diferenças de significado.