Neste ano foram defendidas 4 teses.

Útlima atualização 09/05/2017

Márcia Nascimento

Título: Evidencialidade em Kaigang: descrição, processamento e aquisição

Orientador: Luiz Amaral Páginas: 184


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Esta tese aborda a categoria de Evidencialidade na língua Kaingang a partir do ponto de vista descritivo bem como do seu processamento e aquisição. Interessa ao presente estudo, além de buscar a descrição do sistema, entender como se dá o processo de compreensão dos evidenciais pelos falantes adultos e as implicações no seu uso. Em termos de aquisição desse sistema, o objetivo do estudo é o de averiguar se as crianças são sensíveis às implicações dos diferentes tipos de evidenciais, e em que momento elas passam a compreender essas diferenças. Para a descrição do sistema de evidencialidade em Kaingang retomamos o trabalho de Nascimento (2013), explicando questões relacionadas ao funcionamento desta categoria gramatical e sua relação com a categoria dos Núcleos oracionais. Denominamos Núcleos oracionais a proposta de reanálise que sugerimos à categoria conhecida na literatura como marcadores de sujeito em Kaingang (Wieseman 1967, 2002). Argumentamos que os Núcleos oracionais compõem a categoria funcional que é responsável por licenciar orações matrizes nesta língua, sendo que essa categoria comporta também alguns marcadores evidenciais. Utilizando técnicas da Psicolinguística Experimental, averiguamos questões relacionadas ao processamento dos evidenciais direto e indireto por falantes adultos, através de dois estudos: um experimento de compreensão off-line e um estudo de Eye-tracking (rastreamento ocular). Além desses estudos, abordamos de forma exploratória, questões relacionadas aos evidenciais e à recursividade. Para averiguar a aquisição dos evidenciais pelas crianças, aplicou-se um experimento exploratório de compreensão off-line do tipo “oral sentence/picture matching”, buscando 7 averiguar se crianças Kaingang com idade entre 3 e 7 anos são sensíveis às implicações dos evidenciais reportativo e visual. Os resultados dos estudos experimentais, de modo geral, apoiam nossas hipóteses experimentais e fornecem pistas importantes sobre as características desses morfemas evidenciais, a forma como atuam no processamento e na aquisição pelas crianças.

Maria Fernanda Moreira Barbosa

Título: Processamento e representação de palavras complexas por derivação: um estudo sobre a sufixação do português brasileiro

Orientador: Christina Abreu Gomes Páginas: 187


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Nesta tese, investiga-se como ocorre o processamento e a representação lexical de palavras morfologicamente complexas no Português Brasileiro e, mais especificamente, o grau de analidabilidade sincrônica das formas derivadas por sufixação. Nos Modelos Baseados no Uso, parte-se da hipótese de que há uma relação entre cognição e uso, de maneira que o uso afeta o conhecimento linguístico abstrato e vice-versa. Portanto, postula-se que a frequência de ocorrência e de tipo têm impacto no processamento e na representação dos itens lexicais etimologicamente complexos armazenados na mente dos falantes. Vários estudos mostram que os efeitos da frequência da base ou raiz e da palavra inteira desempenham um papel importante no processamento morfológico. Assim, alguns estudos apontam que as palavras complexas de alta frequência estão mais propensas a serem segmentadas em subpartes enquanto as palavras de baixa frequência apresentam uma tendência maior para serem recuperadas inteiras no léxico mental. Por exemplo, Burani e Caramazza (1987) encontraram evicências de efeitos de frequência de ocorrência e de tipo no italiano. Em estudo mais recente, Burani e Thornton (2003), prevê que uma palavra complexa para ser decomposta ou recuperada integralmente da memória depende da razão entre a frequência da base e da palavra derivada. Neste caso, as palavras morfologicamente complexas podem ser acessadas por duas vias (rota direta e rota decomposicional) que atuam em paralelo e competem entre si, afetando o grau de analisabilidade do item lexical. Nesta pesquisa, a frequência de tipo dos sufixos foi aferida na base de dados do projeto Avaliação Sonora do Português Atual (ASPA/UFMG), sendo selecionados os morfemas derivacionais: (a) -dor, -eiro, -oso, -mento, -ista e -idade, de alta frequência de tipo; (b) e, -ete, -ância, -ência, -ato, -ela e -tico, de baixa frequência de tipo. Para extrair a frequência relativa entre base e palavra derivada, utilizou-se o banco de dados de escrita do Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC/SÂO CARLOS) e a base de dados de fala espontânea do C-Oral Brasil (UFMG). Esse levantamento permitiu-nos compor as listas de palavras complexas para os quatro testes experimentais presentes neste estudo: um teste de relacionamento morfológico; um teste de relacionamento semântico entre base e palavra derivada; um teste para medir o efeito da frequência de tipo dos sufixos derivacionais; e, um teste de decisão lexical. Os experimentos foram formulados para aferir os processos envolvidos na representação de palavras morfologicamente complexas e, mais especificamente, avaliar o papel da frequência relativa na analisabilidade de formas derivadas bem como o efeito da frequência de tipo no processamento dos estímulos empregados nos testes experimentais. Os resultados revelaram que a frequência de tipo, a frequência relativa e a relação semântica entre base e derivado afetaram a velocidade de processamento e o modo como as palavras derivadas por sufixação estão representadas na mente dos falantes. Dada a granularidade da estrutura morfológica das palavras complexas, quando a base é menos frequente que o derivado, as palavras derivadas por sufixação são interpretadas ou analisadas na sua forma plena (palavra inteira). Em contrapartida, nos casos em que a base é mais frequente que o item derivado, as palavras complexas são representadas inteiras e suas partes são analisáveis e participam de esquemas que compartilham a mesma base ou o mesmo sufixo. Esses resultados corroboram as hipóteses de representação e de organização do léxico em redes de relações lexicais e apresentam evidência adicional que efeitos de frequência têm impacto na representação.

Natalia Ilse Paulino Machado

Título: Evidencialidade no português brasileiro com verbo ver: estratégias construcionais com base no uso

Orientador: Maria Maura C. Cezario Páginas: 190


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Este trabalho tem como objetivo geral analisar as contribuições do verbo VER, suas propriedades conceptuais e seus padrões de complemento na composição de construções que funcionam como estratégias de Evidencialidade no PB. A hipótese que orienta a presente pesquisa é a de que as estratégias de Evidencialidade com o verbo VER no Português Brasileiro emergem construcionalmente a partir da contribuição de características conceptuais do verbo e padrões de complementos específicos. As construções de Estratégia Evidencial apontadas nesta pesquisa, por serem maiscomposicionais, vinculam-se às suas partes de maneira mais significativa do que se observa em construções menos composicionais. Em relação a outros verbos de visão, recorreu-se à Semântica de Frames para analisá-los à luz do uso. Com base nos dados, verificou-se que o verbo VER, que compõe as construções de Estratégia Evidencial, evoca a experiência visual de forma mais ampla, perfilando os elementos Experienciador, que é acidental (passivo), e a entidade ou evento percebido. Outros verbos de visão analisados evocam outras perspectivas da experiência visual e, portanto, apresentam usos diferentes dos usos encontrados para o verbo VER. Com relação à representação das construções, decidiu-se pelo modelo de rede conexionista por se tratar de um modelo que pressupõe auto-organização e busca de padrões a partir de dados da experiência. Com isso, as redes aqui propostas procuram explicitar com detalhes as informações envolvidas nos padrões de ativação do processamento das construções de Estratégia Evidencial, conforme pressupostos dos modelos linguísticos com base no uso, mais especificamente da Linguística Cognitivo-Funcional.

Viviane da Fonseca Moura Fontes

Título: Dêixis e construal: uma abordagem cognitivista das formas 'nós' e 'a gente'

Orientador: Diogo Oliveira Ramires Pinheiro Páginas: 251


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Esta tese visa à caracterização da estrutura conceptual das categorias dêiticas formadas pelas expressões pronominais ‘nós’ e ‘a gente’, que indicam prototipicamente a 1ª pessoa do plural. A partir do referencial teórico da Linguística Cognitiva e, principalmente, com base na noção de construal (Langacker, 2008; Verhagen, 2005), o trabalho defende que os dêiticos ‘nós’ e ‘a gente’ ativam construals alternativos para a referência ao grupo de indivíduos formado por falante, ouvinte(s) e/ou outro(s) participante(s) não presente(s) no evento de fala imediato.
Para fundamentar a proposta, estabelece-se uma análise contextualizada desses dêiticos, a partir de dados de fala espontânea retirados de debates político-eleitorais televisionados, que reuniram candidatos a cargos de gerência pública (prefeito e presidente). A hipótese norteadora da pesquisa é a de que os dêiticos apresentam a mesma orientação intersubjetiva, mas contrastam quanto à focalização (organização figura-fundo). Dentro dessa perspectiva, a previsão é que o uso do dêitico ‘nós’ torna mais saliente a identificação individual dos participantes da cena comunicativa, colocando em proeminência a referência dêitica ao falante, seu(s) interlocutor(es) na interação e/ou demais participantes, enquanto a expressão ‘a gente’ subfocaliza a referência particular aos participantes da cena, deixando em destaque o grupo como um todo.
Com o objetivo de evidenciar o contraste entre os dêiticos, a análise busca associar as estruturas conceptuais propostas a contextos pragmáticos e discursivos particulares. Após a análise qualitativa preliminar, que permitiu estabelecer uma tipologia semântica para os dêiticos, os dados foram analisados quantitativamente e submetidos a tratamento estatístico (teste qui-quadrado de homogeneidade). Com relação aos tipos semânticos exclusivo, genérico, inclusivo e pseudoinclusivo, os resultados apontam diferenças estatísticas significativas; principalmente, no que diz respeito ao contraste mais geral entre usos exclusivos e inclusivos. No eixo pragmático, também se observam diferenças significativas com relação ao tipo de ato de fala realizado, verificando-se um contraste entre atos de fala compromissivos, de um lado, e assertivos/diretivos, de outro. Em relação a tipos textuais - em nível discursivo –, os dados indicam uma diferença significativa entre usos narrativo e argumentativo/expositivo.

Diego Leite Oliveira

Título:Construções de Foco com o Marcador "éto" em Russo

Orientador: Maria Luiza Braga Páginas: 269


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Em russo, o marcador éto assume caráter multifuncional, tradicionalmente descrito de duas formas: como pronome demonstrativo e como partícula discursiva. Caracterizações mais detalhadas ressaltam o seu aspecto gradiente, evidenciando instâncias de uso que exibem funções típicas de um pronome demonstrativo e instâncias que mesclam funções pronominais com funções que transitam entre a marcação de cópula e a marcação de foco. Este trabalho investiga construções de foco em russo com o marcador éto, sob uma abordagem construcionista baseada no uso. Nessa perspectiva, considera-se que a estrutura linguística emerge a partir da aplicação de processos cognitivos gerais, não exclusivamente linguísticos, sobre eventos de uso. Dessa forma, buscam-se motivações, que evidenciam a relação entre forma e significado na língua. A capacidade de identificar entidades e eventos no mundo constitui um recurso importante para os seres humanos, a qual não seria possível sem habilidades cognitivas gerais, tais como categorização, abstração, associação, entre outras. Na linguagem especificamente, o ato identificacional assume papel importante e permite que entidades e eventos sejam apresentados e retomados no discurso. Nesse sentido, a língua apresenta mecanismos variados para o estabelecimento do ato identificacional, que se observam não só, mas também, em construções de identificação. Neste trabalho, defendese que as construções de foco com o marcador éto são motivadas pela função de identificar entidades e/ou eventos no discurso, apresentando-os como informação nova. Analisam-se três tipos de construções: a construção pseudoclivada [QUi-X + éto + Yi] e a construção [Éto=X + ‘SX’], que exibem articulação de foco argumental, quando uma variável em uma proposição aberta pressuposta é identificada; e a construção de foco [Éto= S], que apresenta articulação de foco sentencial, quando uma oração inteira se encontra sob o escopo da asserção. Aqui tais construções são analisadas, considerando-se instâncias reais de uso da língua. Com base no Princípio da Motivação Maximizada, postulado por Goldberg (1995), argumenta-se que as construções de foco investigadas neste trabalho são motivadas por duas construções de identificação básicas da língua russa. A construção pseudoclivada [QUi-Y éto Xi] consistiria em uma versão mais específica da construção de identificação [Y éto X], e sua função seria identificar uma variável em uma dada proposição aberta pressuposta, focalizando amplo conjunto de constituintes, desde SN simples até orações, sendo mais característica do discurso escrito; a construção de foco [Éto= X + ‘S-X’]IV consiste, da mesma forma que a construção de foco [Éto =S], em um nó mais específico da construção [Éto=X], mas diferentemente da construção [Éto=S], que evidencia uma articulação de foco sentencial, a construção [Éto=X ‘S-X’] identifica uma variável em uma dada proposição aberta pressuposta, da mesma forma que a pseudoclivada, mas, diferentemente desta última, tende a focalizar preferencialmente SNs pronominais, ocorrendo em contextos explícitos de contraste, além de ser mais comum na fala, corroborando para um princípio igualmente importante na agenda funcional-cognitiva, caracterizado por Goldberg (1995) como o ‘Princípio da Não-Sinonímia’, segundo o qual diferenças de forma acarretam diferenças de significado.