Neste ano foram defendidas 12 teses.

Útlima atualização 14/06/2018

 

Andre Felipe Cunha Vieira

Título:Construções clivadas no galego é o que vais ter

Orientador: Maria Luiza Braga Páginas: 214


O assunto “clivadas” ainda não foi sistematicamente estudado na língua galega e é precisamente sobre isso que este trabalho se debruça. Aqui, quatro construções são estudadas à luz de dados diacrônicos: Pseudoclivada Invertida, Pseudoclivada Extraposta, Construção SER QUE e Clivada Canônica. Quanto à sua estrutura, juntas, essas construções formam um conjunto de construções de foco razoavelmente correlatas, apresentando cada qual uma cópula e uma palavra QU. Dados do período que compreende o século XIII e o ano de 1980 foram analisados qualitativamente e quantitativamente a fim de tecer um panorama o mais acurado possível a fim de contribuir para a descrição do fenômeno de foco no galego. Adotou-se as propostas da Gramática de Construções Baseada no Uso (GCBU), que lança mão do arcabouço teórico da linguística cognitiva e linguística funcional, segundo os quais a língua emerge do uso em razão da capacidade humana de utilizar processos cognitivos de domínio geral para o processamento da linguagem. A GCBU propõe que a língua seja entendida como uma rede de nós e ligações entre esses nós. Cada nó diz respeito a uma construção, que é um pareamento convencionalizado entre forma e significado, bastante similar ao conceito de signo linguístico, já tão corrente nos estudos linguísticos. Em acordo com o defendido por Leite de Oliveira (2017) em relação ao russo, essas construções exibem articulação de foco argumental, sendo, portanto, construções de foco estreito. Propõem-se aqui a aplicação de uma tipologia do foco baseada em Dik (1981), além de uma ampla análise do tamanho, especificidade, status informacional e classe de palavras do elemento focalizado, bem como do processo, tempo e aspecto verbais, com a finalidade de apontar para as distinções que moldam as referidas construções, em acordo com a proposta de não- sinonímia de Goldberg (1995). Com base no Princípio da Motivação Maximizada, também de Goldberg (1995), observa-se a peculiar característica da construção Pseudoclivada com palavra “quen” atribuír traço causador a referentes inanimados. Para dar conta dessa realidade, foram propostas categorias ontológicas que, através de processos distintos e bem definidos, são capazes de serem cooptadas coercivamente por essa construção. Isso resultou na proposta de uma nova matriz de traços de animacidade. Além de tudo o que aqui já foi dito, com o intuito de facilitar o entendimento dos dados diacrônicos, e também com a intenção de propor novas abordagens para o problema da origem do galego, optou-se por apresentar uma breve história crítica dessa língua. A partir dessa narrativa, é proposto o uso do termo galego português para dar conta da variedade do galego falado abaixo do rio Minho, bem como rejeita-se completamente os termos galego-português ou português medieval.

 

Andrea Galvão de Carvalho

Título:Discurso em manifestações: Argentina, Brasil e Espanha

Orientador: Alessandro Boechat de Medeiros Páginas: 146


Esta tese visa estabelecer e analisar os mecanismos de funcionamento da linguagem verbal e não verbal nas manifestações sociais de rua no Brasil, na Argentina e na Espanha no período de abril a agosto de 2013 visando identificar as práticas discursivas utilizadas pelo sujeito-manifestante no ato do protesto. Nosso objetivo principal é, entendendo os protestos como práticas discursivas, definir como os indivíduos se constituem como sujeitos-manifestantes. No que se refere ao aporte teórico, a pesquisa tem como base a escola francesa de Análise do Discurso (AD), a partir de nos trabalhos de autores como Pêcheux, Courtine, Orlandi, além do conceito de carnavalização proposto por Bakhtin. Para a análise do não verbal, temos como fundamentação os estudos de Souza e Davallon.

 

Bruna das Gracas Soares

Título: Mudança na rede construcional do sintagma nominal para pronome: a construcionalização de a gente

Orientador: Maria Maura da Conceição Cezario Páginas: 176


O objetivo deste trabalho é apresentar uma rede construcional dos coletivos de pessoas licenciada pela construção abstrata [(X) NCOLET SG (Y)], que pode explicar a formação histórica das microconstruções a gente (artigo + substantivo), muita gente; o povo; todo o mundo, dentre outras, e a construcionalização da forma pronominal a gente, no português. Em outras palavras, a pesquisa visa a observar a mudança que ocorreu com o uso de a gente (determinante + substantivo), que deixou de ser SN com valor de coletivo e se tornou um pronome. Dentro dessa perspectiva, desenvolve-se a representação de uma rede para demonstrar a formação da construção pronominal.

A partir do referencial teórico da Linguística Funcional Centrada no Uso, busca-se debruçar sobre os dados nos seus contextos reais de comunicação, unindo o papel da frequência de uso das construções linguísticas a fatores cognitivos que expliquem os aspectos sintático- semânticos do sistema da língua. O modelo teórico utilizado nesta tese é o da Construcionalização/Mudanças Construcionais, com base em Traugott & Trousdale (2013) e Traugott (2015), que entendem o surgimento de uma nova construção através dos micropassos de mudança. O modelo da Gramática de Construções (nos termos de GOLDBERG, 1995; 2006, CROFT, 2001) também foi usada para explicar o conceito de que uma construção é qualquer unidade com pareamento forma-sentido bem como a rede de construções.

Para fundamentar a proposta, estabelece-se uma análise qualitativa e quantitativa de dados do século XVI ao XX em corpora de língua escrita, cujo gênero discursivo é composto por cartas. Como o foco da pesquisa é verificar como o esquema abstrato [(X) NCOLET SG (Y)] contribuiu para a formação da construção pronominal a gente, gerando um novo nó na rede, buscaram-se três parâmetros importantes para uma análise construcional: esquematicidade, produtividade e composicionalidade. Verificou-se, com isso, que a construção [(X) NCOLET SG (Y)] é parcialmente esquemática, pois apresenta partes que podem ser preenchidas pelos falantes, e é produtiva, uma vez que houve aumento da frequência de tipo e de ocorrência nos subesquemas [(X) gente (Y)], [(X) povo (Y)] e [(X) mundo (Y)] instanciados por ela. Quanto à composicionalidade, entende-se que a construção a gente, ao se construcionalizar, perdeu o sentido de suas partes, se tornando menos transparente.

 

Celeste Maria da Rocha Ribeiro

Título: Contato Linguístico e a Concordância de Número no Sintagma Nominal do Português de Oiapoque

Orientador: Christina Gomes Páginas: 214


Esta tese focaliza a língua portuguesa, sob a perspectiva do contato linguístico, utilizada em Oiapoque/AP pelos oiapoquenses monolíngues falantes de português; pelos franceses bilíngues francês/português e não-bilíngues usuários de francês L1 e português L2; pelos indígenas bilíngues kheuól/português e não-bilíngues usuários de kheuól L1 e português L2. Objetivamos observar a variedade do português brasileiro falada nessa cidade no que tange ao processo de concordância de número nos itens do sintagma nominal. Foi observada a atuação das variáveis linguísticas e sociais, com base em Scherre (1988), no português L1 falado pelos oiapoquenses, e no português usado pelos indígenas e franceses, no tocante à marcação de plural no referido fenômeno. Nossa hipótese de que haveria algumas diferenças quali-quantitativas entre a variedade empregada pelos oiapoquenses e a usada pelos indígenas e franceses foi parcialmente confirmada. Os dados foram submetidos à regressão logística através do Programa Goldvarb. Os resultados obtidos revelaram que os dados dos falantes monolíngues de PB de Oiapoque replicam os condicionamentos linguísticos observados em outros estudos. Entretanto, para os indígenas e franceses, esses condicionamentos não reproduzem os mesmos padrões observados no PB, inclusive o de Oiapoque. Essa não reprodução é verificada na atuação das variáveis marcas precedentes, saliência fônica e posição do elemento nominal em relação ao núcleo; sendo que o desempenho diferenciado dessas duas últimas foi observado apenas no grupo dos franceses. Os grupos de fatores sociais indicaram, para os oiapoquenses, que a concordância nominal independe da escolaridade para os falantes mais novos; entre os indígenas, houve maior tendência de marcação de plural pelos falantes bilíngues de maior escolarização; e para os falantes com francês L1, a marcação ocorreu mais entre mulheres com mais anos de escolarização. A taxa geral de uso da concordância nominal em Oiapoque se aproxima da encontrada em áreas urbanas, uma vez que a comunidade observada encontra-se em processo de destituição dos traços rurais e aquisição de traços mais urbanos.

 

Elyssa Soares Marinho

Título:Mesclagem conceptual: Uma abordagem cognitivista na interpretação do humor

Orientador: Lilian Vieira Ferrari Páginas: 195


Esta tese tem como tema a construção do significado no humor, especificamente sob o recorte das piadas, baseando-se no arcabouço teórico da Linguística Cognitiva, que concebe a linguagem humana como instrumento de organização e processamento mental, e o significado como construção cognitiva. Além disso, as expressões linguísticas são concebidas como representações parciais e incompletas da estrutura conceptual, sustentadas pelas informações derivadas dos processos perceptuais, sensoriais e introspectivos da experiência humana (EVANS & GREEN, 2006). A partir desses pressupostos e considerando-se que a mente humana é capaz de elaborar e construir o significado a partir de habilidades imaginativas, buscam-se investigar detalhadamente os movimentos cognitivos de construção do significado em piadas, bem como identificar as estratégias linguísticas associadas a esses processos. A partir de corpus selecionado em livros especializados e sites da internet que compilam piadas de acordo com os temas recorrentes entre os apreciadores de anedotas, foi estabelecida a hipótese de que a construção do significado nas piadas envolve Mudança de Frame (COULSON, 2001). Os dados analisados mostraram-se compatíveis com essa hipótese, evidenciando ainda que existem dois processos cognitivos específicos pelos quais a Mudança de Frame se dá: Mesclagem Conceptual (FAUCONNIER, 1994, 1997; FAUCONNIER & TURNER, 2002) e/ou Mudança de Ponto de vista (Zooming out) (TOBIN & ISRAEL, 2012). Com relação ao primeiro processo, em que a Mudança de Frame conjuga-se à Mesclagem Conceptual, observam-se novos sentidos cômicos, a partir da compressão e descompressão de espaços mentais. No que se refere ao segundo processo, em que se associam Mudança de Frame e Zooming out, a comicidade reflete uma mudança de Ponto de Vista.

 

Hadinei Ribeiro Batista

Título: Linguagem, cognição e perfil social: um experimento com cybercorpora

Orientador: Cecilia Mollica Páginas: 188


Esta tese descreve a criação de uma plataforma (SABERE) para subsidiar e diagnosticar o processo de ensino-aprendizagem de produção e revisão textual e discute a relação entre linguagem, cognição e perfil social. Tem como base um estudo de natureza corpus driven, voltada para a análise de alguns processos de produções textuais de aprendizes do ensino fundamental II em ambiente virtual. Investiga-se, com base nas potencialidades do SABERE, o impacto de três fatores sociais (sexo, cor/raça e bolsa família) no planejamento de textos opinativos sobre as temáticas do bullying, jogos eletrônicos e o uso de tecnologia nos tempos atuais. Para tanto, a pesquisa considera a frequência de palavras nos conjuntos de textos para cada par de fator social, buscando explicar as diferenças cognitivas quanto às escolhas linguísticas dos grupos de estudantes. A premissa básica é a de que a linguagem materializada nos textos „fotografa‟, de alguma maneira, as vivências sociais dos sujeitos. O correlato cybercorpus, fator social, uso linguístico e processamento cognitivo de textos permitiu esta pesquisa percorrer três diferentes áreas da ciência linguística: Linguística de Corpus, Linguística Cognitiva e Sociolinguística. No rol de investigação da ciência cognitiva, a análise insere-se mais precisamente na abordagem da Sociolinguística Cognitiva (FAUCONNIER, 1997; LANGACKER, 1987/1993; CROFT, 2009; CLARK, 2007; GEERAERTS et al, 2010; FERRARI, 2016) . Por se tratar de uma análise que parte do conjunto de dados, vários fenômenos foram apurados e receberam tratamento teórico particular, uma vez que as diferenças encontradas, embora condicionadas por fatores sociais, não constituem variantes linguísticas como tradicionalmente se verifica em trabalhos sociolinguísticos. Os dados foram processados com a ajuda de tecnologias que realizam leituras inteligentes de textos, desenvolvidas por pesquisadores da Linguística de Corpus (MCENERY & HARDIE, 2012). Para além de verificar o impacto dos fatores sociais nas produções dos discentes, esta pesquisa traz à tona discussões no âmbito do ensino da língua materna, letramento digital, compilação e análise de dados com recurso tecnológico, contribuindo para a produção de materiais instrucionais mais eficientes.

 

Helen de Andrade Abreu

Título: We, you, they: estratégias cognitivas no uso de pronomes pessoais em inglês

Orientador: Lilian Vieira Ferrari Páginas: 187


Resumo da Tese Download em PDF

Esta tese se propõe investigar os pronomes we, you e they no inglês falado, utilizando o instrumental da Linguística Cognitiva. Mais especificamente, utilizamos a Teoria dos Espaços Mentais (Fauconnier, 1994) as descobertas da Conceptual Science (Lakoff e Narayanan, a ser publicado), e em especial suas noções de Conceptual Integration e Simulation, em conjunto com as noções de Targeting (Talmy, 2013) e Identity Partition (Talmy, 2000). A pesquisa toma como base, ainda, as abordagens cognitivas da dêixis (Rubba, 1996 e Marmaridou 2000), a noção de subjetividade (Langacker, 1990) e a Basic Communicative Space Network (Sanders, Sanders e Sweetser, 2009 e Ferrari e Sweetser, 2012). Esta pesquisa investiga os diferentes usos dos pronomes we, you e they, demonstrando, a partir do trabalho anterior de Andrade (2014), que os diferentes usos dos três pronomes formam uma categoria radial, e que existe um uso genérico para cada um dos pronomes. Tomando como base o Princípio da Não-Sinonímia (Goldberg, 1995), o foco da tese se encontra na busca por uma explicação para a diferença entre we, you e they genéricos.

As principais descobertas da nossa pesquisa são: 1) diferentes processos de Conceptual Integration são responsáveis pelo surgimento dos diferentes usos dos pronomes we, you e they, entre eles, os usos genéricos, que, a princípio, pareciam ser intercambiáveis; 2) ao unir os conceitos de Conceptual Integration e Simulation ao de Targeting, alcançamos uma melhor compreensão de como o ouvinte encontra o alvo (nos termos de Talmy, 2013) para o qual cada um dos pronomes aponta; 3) unindo os conceitos de Conceptual Integration à Basic Communicative Space Network, podemos compreender como surgem diferentes níveis de subjetividade (nos termos de Langacker, 1990) de we e you genéricos e you hipotético; 4) e mais importante, demonstramos que, por efeito das Simulations, que fazem parte dos processos de Conceptual Integration, o ouvinte é convidado, através do uso de we, you ou they genéricos (e, ainda, you hipotético), a imaginar-se na situação descrita, respectivamente como parte de um grupo, como experiencializador, ou como uma pessoa que, juntamente com o falante, não se identifica com o grupo descrito, ainda que os três pronomes, em seu uso genérico, refiram-se a pessoas em geral.

A principal contribuição deste trabalho se encontra em uma compreensão cognitivista mais aprofundada acerca dos dêiticos de pessoa estudados, como resultado de uma articulação de propostas teóricas que convergem para a explicação dos processos cognitivos responsáveis tanto pela criação das categorias radiais de cada um dos pronomes, quanto pela escolha, por parte do falante, entre o uso de we, you ou they para expressar generalização.

Isabella Coutinho Costa

Título: A quantificação em Ye’kwana: a distinção contável-massivo

Orientador: kristine Stenzel Páginas: 186


Esta tese de doutorado apresenta a descrição da distinção contável-massivo no Ye’kwana, uma língua Karib falada no Brasil e na Venezuela. Assim, analiso numerais, pluralização, os quantificadores nominais e a aquisição da interpretação dos quantificadores. No primeiro capítulo apresento dados do povo Ye’kwana e descrevo metodologia utilizada na coleta e análise de dados. No segundo capítulo ofereço um perfil de aspectos relevantes da gramática do Ye’kwana que darão a base para a análise semântica apresentada nos capítulos subsequentes. No terceiro capítulo apresento algumas das principais teorias de distinção contável-massivo, como Link (1983), Gillon (1992), Rothstein (2010) e Chierchia (1998a, 1998b, 2010) e, ao final, mostro também como o Ye’kwana gramaticaliza esta distinção através da distribuição dos numerais. No quarto capítulo apresento uma descrição para nomes nus e para o plural =komo e descrevo algumas Tarefas de Julgamento (Mathewson 2004; Lima 2014a) que investigam a interpretação dessas categorias no Ye’kwana. Este capítulo também traz dados de outras línguas naturais que, da mesma forma que o Ye’kwana, pluralizam nomes massivos. No quinto capítulo trago a descrição de dois quantificadores nominais, ooje e wanna, que podem combinar-se diretamente a nomes contáveis e massivos, mas apresentam interpretação diferente. Para demonstrar essa diferença na interpretação, descrevo algumas Tarefas de Julgamento (Barner & Snedeker 2005; Lima & Rothstein 2016). Para investigar também a aquisição da interpretação dos quantificadores, replico a Tarefa de Barner & Snedker (2005) com crianças Ye’kwana de três a sete anos de idade. Esta tese também é uma contribuição para a literatura sobre distinção contável-massivo nas línguas pouco descritas.

 

Rubens Lacerda Loiola

Título: Construções de aspecto terminativo e cessativo no português brasileiro

Orientador: Maria da Conceição Auxiliadora de Paiva Páginas: 220


Resumo da Tese Download em PDF

Esta tese discute as construções terminativas com [acabar de inf.] e [terminar de inf.] e as cessativas com [deixar de inf.], [parar de inf.], [cessar de inf.] e [largar de inf.] no português brasileiro. O objetivo central é o de identificar as mudanças sofridas por essas construções ao longo dos séculos XIX e XX e o seu grau de gramaticalização no português contemporâneo. A hipótese principal é a de que as construções em análise se encontram em estágios distintos de gramaticalização. Para verificar essa hipótese, são analisadas as restrições que os aspectuais terminativos e cessativos impõem na natureza do predicado, considerando propriedades sintático-semânticas dessas construções, como dinamicidade, telicidade, perfectividade, agentividade do sujeito, traço de controle do sujeito, tipo de processo codificado pelo V2 e os itens lexicais que preenchem essa posição. Uma outra questão deste estudo diz respeito à intercambialidade entre as formas verbais da posição V1. Nos casos em que essa intercambialidade é possível, principalmente nas construções terminativas, porque existiriam duas formas com a mesma função, contrariando, aparentemente, o princípio da não sinonímia das formas gramaticais (GIVÓN, 1985; GOLDBERG, 1995)? Para responder à questão deste estudo, utilizo amostras de escrita dos séculos XIX e XX e amostras de fala do século XX. A pesquisa se insere no quadro teórico dos Modelos Baseados no Uso (LANGACKER, 1991, 2011; GOLDBERG, 1995, 2006; BARLOW E KEMMER, 2000; HIMMELMANN, 2004; BYBEE, 2010, 2015). A análise dos dados mostra que a expressão do aspecto terminativo se faz preferencialmente pela construção [acabar de inf.]. No entanto, é constatado um aumento de frequência da construção [terminar de inf.] no século XX. Situação semelhante é observada nas construções cessativas, com aumento da frequência da construção [parar de inf.]. Os resultados sugerem que ocorreram diversas mudanças nessas construções, especialmente quanto à frequência e à expansão de suas propriedades.

Suzana do Couto Mendes Nery

Título: Aquisição fonológica em crianças com deficiência auditiva usuárias de implante coclear

Orientador: Christina Gomes Páginas: 186


O presente trabalho tem como objetivo estudar a aquisição fonológica de crianças com deficiência auditiva pré-lingual usuárias de Implante Coclear (IC). Estudar essa população fornece uma grande oportunidade para observar como se dá a aquisição fonológica dessas crianças que têm um input auditivo restrito e de que forma esta privação sensorial dificulta o processo de aquisição. As hipóteses de trabalho se baseiam nos pressupostos da Fonologia baseada no Uso (BYBEE, 2001, 2010 E PIERREHUMBERT, 2003, 2012, 2016) e da Emergência da Fonologia (VIHMAN 1996, 2014), que consideram o conhecimento da estrutura fonológica emergente e gradual, estabelecido com base na relação entre cognição e experiência (percepção e produção) e organização e crescimento do léxico mental. Neste trabalho serão apresentados os resultados de dois estudos, um com delineamento longitudinal e um com delineamento transversal. No estudo transversal, foram analisados dados de oito crianças com dois anos de uso de IC e de um grupo de cinco crianças com desenvolvimento típico, pareados em função da idade de exposição ao input linguístico. No estudo longitudinal, foram analisados dados longitudinais da produção espontânea de uma criança com deficiência auditiva a partir da ativação do IC. Os dados do estudo transversal revelaram que as crianças se encontram em processo de aquisição. No entanto, as crianças com maior tempo de IC estão em uma etapa mais avançada de aquisição do que aquelas crianças com menor tempo de uso do dispositivo. Observou-se nos dados variabilidade na produção de um mesmo item lexical e relação entre tamanho do léxico e desenvolvimento fonológico. Nos dados do estudo longitudinal, verificou- se um aumento de produção dos itens lexicais com o aumento do tempo de uso do dispositivo. Inicialmente, as produções referenciais eram provenientes de repetição e, a partir do quinto trimestre após o uso do dispositivo, surgiram as produções espontâneas. Foi possível constatar que o participante passou pelas fases das primeiras palavras e estava, no final da pesquisa, na fase das palavras selecionadas. Os resultados apresentados mostraram que estas crianças apresentam o mesmo percurso aquisitivo de crianças ouvintes, porém com atraso em função do tempo de privação ao input auditivo proveniente da deficiência auditiva e corroboram os pressupostos teóricos adotados neste trabalho.

 

Juliana Barros Nespoli

Título: Representação mental do perfect e suas realizações nas línguas românicas: um estudo comparativo

Orientador: Celso Vieira Novaes Páginas: 178


Resumo da Tese Download em PDF

O objetivo desta tese é o de propor uma representação mental da estrutura sintática do aspecto perfect. Para tanto, desenvolveu-se uma análise comparativa das realizações de perfect universal e existencial, através de formas verbais e expressões adverbiais, em algumas línguas românicas, a saber: no italiano, no francês, no espanhol e no português (europeu e do Brasil). Pretendia-se refutar a hipótese de que a representação mental do aspecto perfect se restringe a uma única projeção sintática de perfect na camada flexional. Para a investigação das línguas selecionadas para este trabalho, optou-se pela análise de dados (1) a partir da revisão da descrição presente na literatura e (2) a partir do corpus C-ORAL-ROM, para as línguas europeias, e a um corpus em desenvolvimento, para a análise do português do Brasil. Observou-se que formas verbais imperfectivas dessas línguas estão associadas à expressão do perfect universal; formas verbais perfectivas estão associadas à expressão do perfect existencial. No tocante aos advérbios/expressões adverbiais de perfect, verificaram-se duas classes semanticamente distintas, uma relacionada a cada tipo de perfect. A análise das realizações de perfect nas línguas investigadas leva à proposição de uma cisão da projeção sintática de perfect até então estabelecida na literatura. Desse modo, pode ser considerada a existência de uma projeção UPerfP para o perfect universal e uma projeção EPerfP para o perfect existencial na representação sintática da sentença, de acordo com a hierarquia UPerfP > EPerfP. Além disso, propõe-se que os traços sintáticos [continuativo] e [resultativo] instanciem as projeções UPerfP e EPerfP, respectivamente. Refutou-se, assim, a hipótese deste estudo.

Paloma Bruna Silva de Almeida

Título: Usos do Presente em Condicionais Epistêmicas e Genéricas: uma Abordagem Cognitivista

Orientadora: Lilian Vieira Ferrari Páginas: 191


Resumo da Tese Download em PDF

This thesis aims at the analysis and description of epistemic and generic conditionals whose protases and apodoses present verbal forms in the present of the indicative, according to the schematic structure [Se P (PRES), Q (PRES)]. The research is conducted from the perspective of Cognitive Linguistics, in particular, based on the analysis of present tense related to the notions of epistemic immediacy and verbal perfectivity and imperfectiveness (Langacker, 2009). This work argues that, although the conditional constructions analyzed present the same structural form, interpretation of conditionals as epistemic or generic is related to cognitive and linguistic mechanisms.

In order to support this claim, the analyzed data includes conditionals taken from Folha de São Paulo newspaper (1994, 1995) and accessed through the website www.linguateca.com.br. The main hypothesis is that the present tense may express chronological immediacy, but also epistemic immediacy. In addition, it is argued that the activation of generic or epistemic meaning depends on specific syntactic and cognitive aspects.

Assuming this perspective, the analyzed linguistic aspects are: subject types and the notion of perfectivity and imperfectivity of verbal forms. In relation to the generic conditionals, specifically, it is also observed the role played by Conceptual Blending and compression of vital relations in the conceptualization of the generic meaning. Focusing on the contrast between the two conditionals, the research seeks a comparative analysis in order to determine how each of these aspects contribute to the epistemic or generic interpretation of the constructions investigated.